Religião
Pouco Padre, Pouca Missa e Muita Festa
por Rubem César Fernandes
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O Brasil é um país católico, mas o Brasil é, também, o país da abertura religiosa, da variedade de crenças e do sincretismo. É esta dupla verdade que faz a beleza e as agruras da religiosidade brasileira.

O País foi oficialmente católico por quatro séculos, do descobrimento em 1500 até o fim do Império, em 1889, fato jurídico que condenava as outras religiões à ilegalidade. Sob o regime de "Padroado", a Igreja foi entregue à direção dos reis de Portugal e, mais tarde, dos imperadores do Brasil.

Acontece, no entanto, que as instituições oficiais tinham pouca penetração na sociedade que se formava no País. A Igreja, assim como o Estado, era um corpo centralizado na metrópole que perdia densidade à medida que se espalhava pelos territórios coloniais. Esta fragilidade institucional caracteriza o catolicismo latino-americano até os nossos dias.

Cerca de 80% das paróquias existentes no Brasil foram organizadas no século XX, sendo 50% a partir da década de 50. As paróquias cobrem imensos territórios e assistem uma grande população. Enquanto na França uma paróquia tem uma área territorial média de 15 km2 e cerca de 1.283 fiéis, na América do Sul estes números saltam para 1 mil km2 e 14.036 pessoas.

Difundiu-se aqui, em conseqüência, a figura da "Desobriga". O sacerdote percorria as vastas terras sob sua responsabilidade, "desobrigando" os fiéis de seus compromissos canônicos: batizava, casava, pregava, regularizava as situações e partia para a aldeia seguinte. Os fiéis ficavam e o padre passava. Configurou-se, assim, um tipo de catolicismo que se caracteriza, como se diz, por "pouco padre, pouca missa e muita festa".

Pouco padre e pouca missa implicam pouco controle doutrinal. A maioria dos católicos brasileiros toma amplas liberdades diante dos ensinamentos oficiais da Igreja. A própria noção de uma ortodoxia é quase ausente. Não há, na cultura religiosa brasileira, um pressuposto de que as pessoas, para guardar coerência, devam acreditar numa única versão dos fatos sagrados.

Na prática, os católicos brasileiros orientaram a sua devoção pelo ritmo do calendário litúrgico. Com ou sem padre, todo dia é dia de santo, ensejando festejos próprios a cada devoção particular. Oratórios domésticos, capelas de beira de estrada, procissões, romarias, promessas, a reza do Terço, irmandades, podiam ser animados sob lideranças leigas, capitaneadas pelos festeiros do lugar.

O culto aos santos foi, portanto, supervalorizado, enquanto a Eucaristia era relegada a um segundo plano. A "proteção" dada pelos santos padroeiros diante das incertezas da vida tornou-se um núcleo estruturante das crenças e das práticas mais difundidas. As missas são importantes, sem dúvida, mas configuram uma situação especial, fora do comum. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-PNAD, 1988), apenas 17% dos católicos freqüentam a missa regularmente, num ritmo semanal.

Sendo pouco regulado pela instituição eclesial, o culto aos santos abriu-se para uma série de articulações sincréticas. Na Amazônia, onde as tradições indígenas são mais influentes, os santos católicos, de origem transatlântica, fazem contraponto a entidades espirituais que povoam o "fundo" das matas e dos rios. A pajelança, exercida por sacerdotes leigos, orienta os fiéis católicos no uso das ervas sagradas e na lida ritual com as entidades "encantadas" que habitam a profundeza das águas.

Já na Colônia, a Inquisição dava notícia da influência africana sobre as crenças dos portugueses no Brasil. Entre os santos de origem medieval, cujas festas a todos envolviam, e as entidades cultuadas pelos escravos, eventualmente freqüentadas pelos senhores, o País tecia um intrincado padrão de práticas religiosas.

No final do século XIX, tradições nagô impuseram-se na memória africana, dando-lhe uma forma que se difundiu pelo território nacional. O Candomblé da Bahia, o Xangô do Recife, a Mina do Maranhão, apresentam, com variações, um conjunto comum de crenças e de práticas. Em todos os casos, o culto afro-brasileiro integra-se ao calendário católico. Descansa na quaresma até o sábado de aleluia, como em sinal de respeito ao drama maior da morte e ressurreição de Cristo, e combina as festas dos orixás com as festas dos santos.

O contraste original europeu/africano é marcante, mas a participação atravessa as classes e as raças. No Brasil, a religiosidade não constitui identidades culturais exclusivas. Brancos e negros participam das celebrações do dia e da noite, e as crenças veiculadas pelos antigos escravos ganham hoje ampla difusão entre as classes médias.

Uma terceira vertente foi introduzida pelo Espiritismo Kardecista, que cresceu no Brasil a partir do século XIX. Situado no contexto cristão, o espiritismo se destaca pela comunicação com as almas. Ajuda-as a encontrar e a seguir o seu caminho no vasto processo evolutivo, que se cumpre através de sucessivas reencarnações.

O relacionamento com as almas dos mortos já era uma prática importante na tradição ibérica, associada à doutrina medieval do purgatório. Ainda hoje, a cada segunda-feira, dia consagrado às almas, velas acesas espalham-se pelas cidades do País, iluminando as orações pelos mortos. O espiritismo desenvolveu esta dimensão da religiosidade portuguesa, emprestando-lhe densidade ritual e um novo sentido teórico.

Entre os santos, os orixás e as almas formou-se um campo tão rico de entidades espirituais, que uma nova religião surgiu, com características francamente brasileiras. É a Umbanda, invenção do século XX. Valoriza os santos católicos e os orixás africanos, mas abre espaço para guias espirituais de um outro perfil: são personagens locais, espíritos desencarnados, que escapam às hierarquias da sociedade formal.

É o caboclo, figura livre e ousada das matas; o preto velho, escravo combalido pelos trabalhos de uma vida, porém pleno de sabedoria; os exus, com o "povo das ruas", como o malandro Zé Pilintra, as pombas giras, as ciganas ou o boiadeiro das longas viagens; e as crianças, travessas. A Umbanda demonstrou, com o seu sucesso, que os católicos brasileiros gostam de ouvir as vozes que emergem das margens da sociedade.

Esta disponibilidade para assimilar outras e novas crenças é potencializada com o avanço das comunicações. Migrantes japoneses trazem mensagens como as da Perfect Liberty ou da Igreja Messiânica, que atraem um número expressivo de brasileiros de múltiplas origens. As meditações orientais, o Budismo, o Sufismo, a mística esotérica, a ufologia encontram terreno fértil para se expandirem, sobretudo entre as classes médias.

Em meio a esta profusão de entidades espirituais, algumas reações importantes fizeram-se notar nas últimas décadas. Dentre elas, duas se destacam: a Teologia da Libertação e os movimentos evangélicos e pentecostais. Ambas concentram a sua atenção no drama central da tradição cristã, deixando de lado, ou mesmo combatendo a comunicação com as almas, os guias, os orixás, os avatares e os santos. São portadoras de mensagens de reforma que devem ter conseqüências para a modernização da cultura religiosa do País.

A Teologia da Libertação teve o seu apogeu nos anos 70 e 80. Propôs uma leitura histórica da morte e ressurreição de Cristo, numa retomada da tradição messiânica de origem judaica. Organizando-se em pequenas comunidades de leitura bíblica (as Comunidades Eclesiais de Base - CEBs) ou em pastorais especializadas em movimentos sociais (da terra, indígena, de menores etc.), desenvolveu uma visão social das promessas cristãs de salvação.

Os evangélicos e pentecostais também se organizam em congregações locais, com alto índice de participação dos seus adeptos, onde a mensagem de salvação é dirigida sobretudo aos indivíduos e às relações interpessoais. A doença, as dificuldades familiares, as crises materiais e de emprego são objeto de orações com um sentido de cura e redenção. Animados pela presença do Espírito Santo, evangélicos e pentecostais multiplicam-se num ritmo impressionante. Configuram o maior fenômeno religioso do fim do século XX. Dizem que é preciso "nascer de novo", dar as costas ao passado e abrir-se para mudanças radicais no modo de vida, inspiradas única e exclusivamente por Jesus Cristo. A maior das congregações, a Igreja Universal do Reino de Deus, é atuante em todo o território nacional e mesmo fora dele, estabelecendo ramificações na Flórida, EUA e em vários países da Europa.

O catolicismo é uma religião totalizante, que pretende incluir em seu seio a variedade das experiências humanas. O catolicismo brasileiro cumpriu esta vocação abrindo-se para múltiplas combinações sincréticas. Resulta uma cultura religiosa capaz de abrigar tantas visões quantas lhe sejam apresentadas pela história da comunicação entre os povos. Não é livre de conflitos, mas lida com eles, no plano das crenças, com uma notável margem de tolerância e uma intrigante curiosidade positiva pelas verdades que ainda estão por chegar. Atualmente, uma ala interna da Igreja Católica, chamada "Renovação Carismática", ensaia uma reação ao avanço dos evangélicos e pentecostais, atuando com práticas que estimulam a participação ativa dos fiéis durante as missas e de grande visibilidade na mídia.